Custo de parlamentar no país é o mais caro do mundo
Cientista político diz que, mais importante que manifestações populares, é fundamental ter consciência na hora do voto
Em dezembro do ano passado, os salários dos deputados e senadores brasileiros aumentaram em 61,8%, passando de R$ 16.512,09 até R$ 26.723,13. O salário da presidente da República, antes de R$11.420,21, também aumentou e atingiu o teto, sofrendo alteração de 133,9%. E o contracheque do político brasileiro corresponde a apenas um quarto de todo o montante recebido mensalmente em verbas e auxílios.
Um levantamento feito pela rede de televisão BBC Brasil aponta que os vencimentos básicos de políticos brasileiros são 8% maiores que os dos congressistas norte-americanos e 84% maiores que os dos britânicos. A Organização Transparência Brasil aponta que os políticos brasileiros são os mais caros do mundo, onde cada parlamentar tem um custo médio de R$ 10,2 milhões por ano. Na Itália, esse valor é de R$ 3,9 milhões e, na França, de R$ 2,8 milhões. Na Argentina, cada parlamentar custa R$ 1,3 milhão e, na Espanha, R$ 850 mil por ano.
Na opinião do cientista político Gehad Hajar, pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR), quando se discute o valor gasto com políticos é necessário levar em conta dois pontos: o tamanho do Brasil e o modelo político adotado no país, que é oneroso. “O parlamentar brasileiro precisa deslocar-se semanalmente à sua base. Além disso, o sistema político é caro, porque as eleições são com base em votos proporcionais (cada estado tem uma bancada com um número determinado de deputados) e não distritais (o eleitor tem dois votos – um para uma lista fechada e outro para uma disputa em seu distrito) – e isso gera custo”, analisa.
Ele garante, entretanto, que isso não justifica o valor “exorbitante” pago aos congressistas. “Não há eficiência que justifique esse valor. Cada minuto trabalhado custa R$ 11.545 nos bolsos dos contribuintes”, revela o pesquisador.
O deputado federal Luiz Paulo Vellozo Lucas, do PSDB do Espírito Santo, diz que o valor pago não apenas é injustificável como também pode ser considerado um escândalo. Ele fala que cada político pode ser comparado a uma mini-empresa, já que, além da sua folha de pagamento, tem cerca de 25 pessoas trabalhando para ele. “Nosso modelo é muito caro, pesado, de baixíssima flexibilidade, muito ruim e pouco funcional”, afirma.
Hajar afirma que o modelo político adotado no país não é gerencial e nem eficiente e, caso fosse uma empresa, não funcionaria desta forma. “Esse modelo só continua existindo porque há fontes que o sustentam, como os impostos”, ressalta.
Solução
Lucas diz que um dos principais problemas do modelo governamental brasileiro é a ausência de voluntariado e que, quando se pensa em reforma política, o foco sempre está no Congresso – quando na verdade deveria estar na base, que são as prefeituras e Câmaras de Vereadores. “Nos Estados Unidos, nas cidades que têm até 150 mil habitantes, o prefeito não tem salário. Algumas vezes, não existe nem mesmo a figura do prefeito e quem administra o município é um gestor”, revela.
O deputado defende que aqui as Câmaras de Vereadores deveriam ser Câmaras de Gestão, e os representantes deveriam ser escolhidos com votos distritais. “Não vejo sentido em existir o legislativo municipal. No Brasil, se você perguntar para que serve vereador e deputado, muita gente não sabe a resposta. E alguns servem para muito pouco, mesmo”, fala Lucas.
O pesquisador da UFPR afirma que o país poderia se espelhar em outras nações que mantêm, além dos tradicionais três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), auxiliares como o Ministério Público mais ativos, como acontece na Espanha, por exemplo.
Lucas garante que uma solução para diminuir os custos com políticos seria começar mudando as câmaras de vereadores. “O vereador seria uma espécie de ‘prefeitinho’ do seu bairro, representando aquela região na prefeitura. Isso faria com que o modelo levasse em conta o interesse coletivo e não a soma dos interesses egoísticos das partes”, afirma.
População mais ativa
Hajar diz que falta no Brasil uma participação mais ativa da população. “Estamos caminhando para uma democracia participativa, mas o que temos é uma gestão representativa: tudo fica nas mãos do Executivo e a população não participa ativamente. Nós não controlamos nossos políticos” afirma o cientista político.
Ele fala que o povo não está preocupado com a eficiência e o custo do parlamentar, e sim se vai ter algum benefício particular com a eleição do político, o que vai acontecer na sua rua ou na sua empresa. “Não elegemos o político focando no que ele faz no geral, é algo mais pessoal. A nossa cidadania é indireta, já que delegamos poder ao político para que ele faça o que queremos que seja feito”, afirma.
Hajar garante que as recentes manifestações contra a corrupção no país não são suficientes, do ponto de vista participativo. “Peixe sem cabeça nada para lugar nenhum. Político de hoje em dia não teme mais manifestações, que acabam virando um aglomerado de pessoas. O que vai, de fato, fazer alguma diferença é ter consciência na hora de votar. Saber que voto de protesto não é eleger qualquer um para o Congresso”, alerta.
O cientista político garante que, como não é possível que no Brasil emendas à Constituição sejam feitas a partir da população, essas modificações só podem ser feitas pelo Executivo. “Dependemos dos políticos para que grandes mudanças sejam feitas”, afirma Hajar.
Ógui Especial para o Terra
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